Os rumos do Brasil enquanto nação nunca foi linear. Na realidade, sempre houve avanços e retrocessos. Poderíamos, então, afirmar que os rumos do país são, ainda, ambivalentes.
Depois de quase 30 anos de ditadura militar, com seus retrocessos jurídicos e morais, nos vimos otimistas com a redemocratização: a partir da nova constituinte de 1988 avançaríamos implementando a democracia e, enfim, os direitos fundamentais, como liberdade de expressão, de impressa e partidária. Falo liberdade partidária, no sentido de uma liberdade não formal, como fora vivido nas décadas precedentes, mas uma liberdade concreta. De fato, uma democracia!
Contudo, como foi afirmado acima, na política, nada é linear, mas ambivalente. Após a redemocratização, por clamor e lutas sociais, a elite econômica e o sistema político não permitiram que os avanços reivindicativos da sociedade civil se concretizasse em seus termos. Destarte, houve uma centralização política em termo de um projeto político ora progressivo ora conservador, na esteira da dominação econômica que ela mesma tentou camuflar o nacional desenvolvimentismo, subsequentemente, as desigualdades socioeconômicas.
Esta centralização, o filósofo político Marcos Nobre chamou em seu livro ‘’Imobilismo em Movimento: Da Abertura Democrática ao Governo Dilma’’ de pemedebismo. Este modo de fazer política consiste em ditar todos os movimentos políticos e econômicos coibindo qualquer desenvolvimento social que mexa demais no ‘’bolo’’ da elite econômica. Permite, a partir de lutas sociais e sindicais, que apenas pequenas fatias do bolo sejam "cortadas", isto é, promovendo uma manutenção do "status quo" da produção econômica brasileira.
É com estas dificuldades que o ex-presidente Lula teve que lidar; Para ser eleito, ele precisou mudar um discurso radical, para um discurso mais centralizador. No entanto, não chegou (ao meu ver) a ser pemedebista: sua centralização estava radicada num projeto nacional desenvolvimentista. O Partido dos Trabalhadores, até o segundo mandato do ex presidente Lula, foi a maior oposição do pemedebismo, isto é, do sistema político partidário. Sem querer aprofundar demais no debate mais especializado, por falta de espaço, passarei a dizer as razões do título: "O por que o Lulismo foi ambivalente?"
O Lulismo é o nome de uma centralização política em torno de um nome: Luiz Inácio Lula da Silva.O Partido dos trabalhadores e Lula seriam uma e a mesma coisa. Assim, seria uma força política de luta que pôs pautas sociais de desenvolvimento e distribuição de renda. Mas centrado numa figura política: o ex presidente Lula.
Entretanto, nem Lula e nem seu governo pode ser acusado de populista. Um governo populista é aquele que governa sem mediação política, sem o sistema partidário: seria um governo que, sem mediação partidária do congresso, lida diretamente com o povo, ou se quiserem, com os movimentos sociais. Mas, isto não aconteceu! O ex presidente Lula nunca governo sem o congresso. Na verdade, o congresso nacional sempre foi seu "Calcanhar de Aquiles". Contudo, apesar das disputas políticas no congresso, Lula soube lidar e o projeto social desenvolvimentista pode dar seus primeiros passos concretos: Com o governo Lula, houve maior distribuição de renda, tirando mais de 40 milhões de pessoas da fome, o país teve respeito mundial, todas as classes ascenderam socialmente e a elite econômica como sempre, ficou mais rica.
Como dissemos, em política nada é linear, mas ambivalente. Apesar de conquistas sociais por intermédios de disputas partidárias no primeiro mandato do PT, logo o partido entrou em crise no seu segundo mandato. Foi o escândalo do mensalão. Após a crise, o governo para se sustentar politicamente precisou do pemedebismo, isto é, precisou do sistema político centrista para se manter no poder e governar. Desse modo, desde o segundo mandato do ex presidente Lula até o impeachment da ex presidenta Dilma Rousseff, se apresentaram como governos pemedebistas.
Estas são as ambivalências do Lulismo: estar entre o sistema político corrupto, conservador e um projeto nacional desenvolvimentismo; para finalizar esta breve reflexão política, gostaria de dizer que qualquer partido de esquerda que queira governar precisa reconhecer as ambivalências política; deve ser melhor do que o PT, mas sabendo que mudanças não são feitas da noite para o dia: Em toda luta há vitórias e derrotas, ganhos e perdas. Falo isso porque muitos militantes de esquerda acham que só é possível mudanças nas ruas com violência. Penso que apenas nas ruas não é possível, pois o sistema político e a elite econômica são muito fortes. Há uma blindagem econômica radical. Mas se soubermos unir as forças partidárias e movimentos sociais é possível uma mudança em rumo à uma maior igualdade social. Precisamos retomar um projeto de nação desenvolvimentista. Contudo, sabendo lidar com o sistema político, sem utopia abstrata: precisamos de uma normatização concreta, isto é, um horizonte de luta com os pés do chão. Portanto, precisamos reconhecer as ambivalências da política, sabendo perder para ganhar.
Texto escrito por
Thiago Andrade - Teólogo e graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
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